IMPRENSA


 

O mineiro Felipe de Ávila tem ganhado destaque na Finlândia, onde vive desde 2013, em função de sua pesquisa acerca da materialidade escultórica do resíduo derramado no desastre em Mariana. O artista conta que mudou-se para o país europeu por conta de seu mestrado, que explora questões sobre a ruína, abordando destroços e rejeitos em busca de uma memória coletiva.

Lucas Buzatti - Jornalista em Jornal Hoje em Dia
http://hojeemdia.com.br/almanaque/cria%C3%A7%C3%B5es-e-pesquisas-art%C3%ADsticas-mant%C3%AAm-em-pauta-a-trag%C3%A9dia-ambiental-de-mariana-1.624716

A escultura Ode to Anthropocene do artista Felipe De Avila atrai imediatamente a atenção e prepara o clima para toda a exposição. À primeira vista, a ampulheta de cor negra da obra de De Avila poderia referenciar Walter de Maria na tradição da escultura minimalista, mas um olhar aproximado revela sua verdadeira natureza: a superfície da escultura é na verdade uma camada petróleo que flui e escorre constantemente de cima abaixo pela parte externa da estrutura. Atuando como uma analogia com o Antropoceno - o período geológico provocado pela ação da sociedade humana do pós industrial - o fluido na superfície da escultura parece estático mas se move de forma constante e quase imperceptível. Como um sistema autônomo, Ode ao Antropoceno de Felipe de Avila é como uma ode à impossibilidade da utopia tecnológica oferecida pela modernidada.

 

Laura Kokkonen - Mustekala Kulttuurilehti (Mustekala Revista Cultural)

Artigo sobre o trabalho Ode ao Antropoceno na exposição KuvanKevat 2016
http://mustekala.info/kritiikit/kuvan-kevat-2016/

Na exposição Arqueologia do Antropoceno de Felipe de Ávila, os traços modificados de vida e comportamento humanos se transformam em estratos distópicos de futuro. As escavações arqueológicas do artista sobre percepção do tempo e do espaço nos levam a uma jornada ao longo dos tempos, revelando a nossa própria necessidade primária de sobreviver e nos proteger até o ponto de um retorno impossível. Felipe de Ávila vê a arte como uma ferramenta composta de diferentes componentes - ele combina escultura, pintura e escrita usando a impressão em 3D, bem como o vídeo, a fim de alcançar a forma certa para a idéia por trás de cada trabalho. As justaposições materiais e as contradições temáticas seguem de um trabalho para outro, obrigando-nos a questionar nossos esforços em relação a questões geopolíticas, transferência de energia, natureza e seus recursos. O movimento e a transição às vezes são pouco distinguíveis, como o petróleo escorrendo sobre tijolos artesanais empilhados buscando algum equilíbrio como estrutura estável. As arcadas dentárias impressas em 3D mergulhadas em concreto como um kit de sobrevivência cotidiano, mas também como uma importante fonte de informação do pós-morte, nos traz de volta às questões de mortalidade e à nossa presença frágil na Terra. As tentativas de construir paredes, moldar o futuro e diminuir a velocidade do processo de morte nos parecem sombrias e desesperadas, quando representadas como descobertas arqueológicas sob a forma de drogas, jogos de azar e objetos antigos de tradição e culto, que há muito perderam seu significado original. Juntas, as obras dessa exposição constituem um caminho em que a natureza e a sociedade são desconstruídas em fragmentos, expondo muitos futuros simultâneos, mas contraditórios, em um sistema baseado em relações materiais já fora de controle. A exposição do artista brasileiro Felipe de Ávila (1982) forma a segunda parte de sua tese de mestrado em escultura na Academia de Belas Artes de Helsinque.


Katariina Timonen - Curadora
Memorial conceitual escrito para a exposição Arqueologia do Antropoceno -  2017
https://www.uniarts.fi/en/events/fri-16122016-1454/felipe-de-avila-archaeology-anthropocene

Ode to Anthropocene (2016) é um trabalho excepcionalmente ousado e tecnicamente complexo para ser apresentado no contexto da exposição do estilo salão de arte (Kuvan Kevät 2016). Apesar do ambiente heterogêneo, o trabalho se destacou com uma qualidade monolítica. Ao criar um fluxo constante de óleo industrial escuro escorrendo pela escultura de aço inoxidável em forma de ampulheta, Felipe de Ávila formula uma sinistra metafóra para as lacunas e aspectos auto-destrutivos da modernidade. Ele se refere ao conceito de “modernidade fluida”, cunhado pelo falecido filósofo Zygmunt Bauman e ao fazer referência ao Antropoceno, Felipe de Ávila se dirige diretamente ao debate ambiental e geológico envolvendo o conceito, que se intensificou nos últimos anos. Não menos importante, o “Antropoceno” teve uma forte influência nos discursos da arte - valendo a pena mencionar como artistas como Nestori Syrjälä e Axel Straschnoy, notórios da cena artística finlandesa que abordaram o tema por outros ângulos. Ode to Anthropocene mostra como Felipe domina trabalhos em escala, onde a escultura de grande dimensão consegue ocupar e controlar o espaço circundante com impacto impressionante. Foi na minha opinião o trabalho que se destacou mais forte em toda a exposição Kuvan Kevät 2016. Sua materialidade e forma o conectam à uma estética industrial funcional, ao mesmo tempo que se aproxima da autoridade de uma escultura do modernismo tardio. Os aspectos cinéticos do trabalho relacionam-se com questões de tempo e a espacialidade, combinando a presença estática de uma escultura sólida com o fluxo temporal - e com a fluidez em si - do líquido. Este é um trabalho que reúne a abordagem abstrata modernista com as preocupações ambientais e os discursos dos tempos atuais.

 

Pontus Kyander - Curador 
https://no.wikipedia.org/wiki/Pontus_Kyander

Felipe de Ávila constantemente apresenta dicotomias materiais e conceituais em seus trabalhos. Situações onde o arranjo material cria um questionamento, um apontamento abrangente e não focado no objeto em si, mas criando um novo signo. Seus trabalhos são desenvolvidos a partir de material vario, onde a carga ideológica que permeia os objetos permite ao imaginário criar um outro. As tríades compõem em cada imagem uma intenção perfeitamente palpável dentro de sua imaterialidade, onde opostos ou paralelos se tornam complementares. Dimensões que até então eram somente brutas emergem para além da própria substância e ganham um sentido de peso e leveza mútuos que se equilibram.

Marcus Vinicius Correa Carvalho - Historiador

Memorial conceitual escrito para a exposição VS. na Galeria de Arte da COPASA -  2011
https://www.scribd.com/document/57919540/VS-Marcus-Vinicius-Correa-Carvalho